life espanol ago 19641964, dez anos depois que Donald Keene, o maior estudioso da literatura japonesa, caminhou pelas ruas de Kanazawa pela primeira vez, foram realizados os Jogos Olímpicos de Tóquio. Naquele ano, pela magnitude do evento, quase todas as revistas estrangeiras fizeram matérias, antes e depois das Olimpíadas. A maioria falou dos jogos em si e também da cidade de Tóquio. A revista Life (em espanhol) lançou um número especial em 31/8/1964 para falar exclusivamente do Japão. O título é “El Japón No Es Sólo Tokio”. Escrito por Kenichi Yoshida, o texto apresenta todas as regiões do arquipélago, e dá um grande destaque para a cidade de Kanazawa, uma das cidades por onde passou a tocha olímpica a caminho de Tóquio:

“Kanazawa, uma cidade da província de Ishikawa, encravada na costa banhada pelo Mar do Japão, teve a vantagem de não ter sofrido nenhum bombardeio durante a Segunda Guerra Mundial, embora tenha abrigado uma importante divisão do exército japonês. Poderia atribuir essa “falha” ao exército inimigo, mas também pensar na sua propensão à boa vida. Algum oficial do Serviço de Inteligência que gozou suas férias em Kanazawa, antes do conflito, deve ter apreciado suas qualidades como um lugar ideal para desfrutar um merecidíssimo descanso depois da desgastante luta. Não só para si como também para seus companheiros. Como fez Aníbal e seu exército depois da batalha de Canas (quando os cartagineses venceram os romanos). Por sorte, seus superiores devem ter gostado da ideia, e graças a isso, podemos desfrutar dessa joia de cidade.

Dois rios paralelos atravessam Kanazawa, dando-lhe o formato de uma andorinha (“tsubame” em japonês), com uma colina central no lugar da cabeça e do corpo, e os rios, ao se afastarem, formam as asas da ave. Ao largo do rio se entrecruzam as ruas com um ar de nostálgica serenidade. Nelas se veem as estruturas nativas típicas como em nenhum outro lugar do Japão, além de Kyoto. Entre elas se descobrem restaurantes e casas de chá, cada qual com vista a um ou outro rio. Ameixas e cerejas bordeiam e embelezam a margem desses rios.

Kanazawa foi por muito tempo o lar do daimyo, cujos domínios só eram superados pelos da dinastia Tokugawa, os donos do Japão no passado. O daimyo precisava convencer a família Tokugawa de que não pretendia provocar rebeliões. Não havia melhor meio de demonstrar do que gastando dinheiro em obras de natureza não bélica, e por consequência, o desperdício era a ordem do dia em todos os domínios dos daimyos, principalmente em Kanazawa. A arte se floresceu e se cultivaram costumes delicados. Por exemplo, uma característica da arquitetura de Kanazawa consiste em pintar as paredes do cômodo principal com cinabre (à base de mercúrio), que com o passar dos anos ganha uma cor marrom escuro. As famílias possuem um ou mais biombos recobertos de folha de ouro (uma das indústrias principais da cidade é a manufatura e o emprego de folhados de ouro). Imagine uma sala pintada de marrom escuro, que dá uma impressão de grandiosa riqueza, com pilares laqueados da mesma cor e biombos dourados, para conseguir um efeito, que constitui um cenário magnífico para qualquer reunião. Qualquer um pode desfrutar deste ambiente sozinho ou na companhia de amigos, mesmo que não conheça ninguém na cidade, porque a maioria dos restaurante de renome é tão antiga que pode alardear de tais tesouros, sem falar na qualidade da sua cozinha.

Tem que ver para crer. Cada prato é explicado por seus atendentes que o servem (cuja presença já é um colírio para os olhos) e não porque seja grande coisa saber o nome de cada peixe, ave ou legume, ou como se transformaram na maravilha que nossos olhos contemplam. Basta que saiba o que sabem, por exemplo, o fígado em conservas ou torta de nozes moídas. Tudo muito saboroso, porém é de mau gosto pedir para repetir uma porção de torta, por exemplo, porque sua confecção é tão delicada que em geral não sobra para repetir.

kanazawa 64 autorAs mulheres de Kanazawa consideram Kyoto o centro da civilização e copiam as modas daquela cidade, o qual constitui uma troca agradável para o viajante cansado das cópias de Tóquio em tantas outras cidades japonesas. Os habitantes de Kanazawa, em geral, falam um dialeto parecido com o de Kyoto, provavelmente é mais musical de todos do Japão, especialmente na voz feminina. Na verdade, para o visitante estrangeiro que deseja ter uma impressão de que está em Kyoto, sem a necessidade de se acotovelar com outros estrangeiros que também a visitam, Kanazawa deve figurar entre as paradas favoritas numa visita ao Japão.

O autor: Kenichi Yoshida – Natural do Japão, morou na França e na Inglaterra, tendo estudado no King’s College em Cambridge, em 1930 e 1931. Ele escreveu sobre temas variados que vão desde Shakespeare a gastronomia. Serviu a Marinha japonesa em 1945, e desde então têm escrito contos curtos como O Banquete (1957). Entre as suas obras estão: Literatura Inglesa (1949), Shakespeare (1951), Literatura Inglesa Moderna (1959), e Os Princípios Gerais da Literatura (1960).
 

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